Principal Ideia
A tese central de Cristo e Cultura: Uma Releitura, de D. A. Carson, pode ser formulada assim: a tipologia quíntupla de H. Richard Niebuhr sobre as relações entre Cristo e cultura — embora historicamente influente e heuristicamente útil — é teologicamente insuficiente, epistemologicamente problemática e biblicamente reducionista. Carson argumenta que nenhum modelo isolado dá conta da complexidade bíblica e que somente quando os grandes pontos decisivos do enredo da redenção são mantidos simultaneamente é que os cristãos podem pensar com fidelidade sobre sua relação com a cultura.
O livro está organizado em seis capítulos que formam um arco argumentativo progressivo. Carson começa apresentando e avaliando a tipologia de Niebuhr (cap. 1), submetendo-a ao crivo da teologia bíblica (cap. 2), refinando o conceito de cultura e tratando do pós-modernismo (cap. 3), examinando forças culturais como secularismo, democracia, liberdade e poder (cap. 4), analisando as relações entre Igreja e Estado em contextos diversos (cap. 5), e concluindo com uma coletânea de agendas controversas e tensões permanentes que os cristãos enfrentam (cap. 6).
A contribuição teológica do livro é significativa. Carson se insere na tradição evangélica reformada, dialogando extensamente com Niebuhr, Agostinho, Calvino, Lutero, Kuyper, Hauerwas, Yoder, Barth, Moltmann, Bauckham, Tim Keller e muitos outros. Sua originalidade não está em propor um novo modelo de relação entre Cristo e cultura, mas em demonstrar que a busca por modelos estanques é equivocada. A abordagem correta é manter juntos, simultaneamente, os elementos inegociáveis da teologia bíblica: criação, queda, redenção inaugurada em Cristo, tensão entre o já e o ainda não, e consumação escatológica.
Para a Igreja no Brasil, este livro é de relevância crítica. Em um contexto onde grupos evangélicos oscilam entre o isolamento cultural e a simbiose com o poder político, entre o triunfalismo transformacionista e a passividade pietista, Carson oferece um corretivo profundo. Ele demonstra que nenhum desses extremos é fiel à totalidade do testemunho bíblico. A solução não é escolher um modelo, mas habitar a tensão que o próprio enredo bíblico impõe — vivendo como cidadãos do reino já inaugurado, mas ainda não consumado, em culturas específicas que estão simultaneamente sob a soberania de Cristo e em rebelião contra ela.
"Não se pode colocar os dois termos, 'Cristo' e 'cultura', um contra o outro em oposição absoluta, não apenas porque os cristãos fazem parte da cultura, mas também porque toda autoridade é dada a Cristo nos céus e na terra." (cap. 2)
"As afirmações bíblico-teológicas têm de controlar nosso pensar simultaneamente e o tempo todo. É por isso que as denominei 'os elementos inegociáveis da teologia bíblica'." (cap. 2)
"Não existe nenhum centímetro quadrado em toda a esfera da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não exclame: 'Meu!'" (Kuyper, citado no cap. 6)
A conexão missional é profunda: Carson demonstra que a Grande Comissão exige uma reflexão sobre Cristo e cultura que seja teologicamente fundamentada, contextualmente sensível e escatologicamente realista. Sem manter juntos os elementos inegociáveis da teologia bíblica, a contextualização se torna sincretismo, o engajamento cultural se torna mundanização e o isolamento se torna irrelevância. A missão da Igreja exige simultaneamente fidelidade ao evangelho e presença transformadora na cultura — habitando a tensão até a consumação.
3 Insights Fundamentais
Insight 1 — A Tipologia de Niebuhr É Útil, Mas Insuficiente
O senso comum evangélico brasileiro opera frequentemente com tipologias simplificadas para pensar a relação entre fé e cultura. Muitos líderes adotam, conscientemente ou não, um dos modelos de Niebuhr como se fosse a resposta cristã definitiva: alguns abraçam o isolamento (Cristo contra a cultura), outros a transformação triunfalista (Cristo transformador da cultura), outros ainda a acomodação (Cristo da cultura). Carson demonstra que cada um desses modelos, tomado isoladamente, é um reducionismo que distorce o testemunho bíblico.
A crítica de Carson a Niebuhr é multifacetada. Primeiro, a abrangência de Niebuhr é também sua fraqueza: ao incluir gnosticismo e liberalismo teológico como opções cristãs legítimas, Niebuhr compromete a integridade de sua tipologia. Segundo, o uso que Niebuhr faz das Escrituras é seletivo: ele escolhe motivos bíblicos que sustentam cada modelo, ignorando a tensão entre eles. Terceiro, as personagens históricas que Niebuhr atribui a cada modelo frequentemente não se encaixam bem — Agostinho e Calvino aparecem em mais de uma categoria, o que sugere que os modelos são menos distintos do que Niebuhr pretende.
O insight desconstrói a expectativa idealizada de que existe uma resposta cristã única e simples para a relação com a cultura. No contexto brasileiro, onde igrejas frequentemente oscilam entre extremos — do isolamento sectário ao engajamento político acrítico — essa correção é vital. Carson mostra que a busca por um modelo único é teologicamente irresponsável: a realidade bíblica é mais complexa do que qualquer tipologia pode capturar.
A nova forma de ver essa verdade é libertadora: em vez de perguntar "Qual modelo devo adotar?", o cristão deve perguntar "Como os elementos inegociáveis da teologia bíblica se aplicam à minha situação concreta?". A motivação bíblica é a própria estrutura do enredo bíblico: criação boa, queda radical, redenção inaugurada, tensão escatológica e consumação futura — todos mantidos simultaneamente.
Citações-Chave
"Parece que alguns dos cinco padrões de Niebuhr, ou talvez todos, precisam ser redefinidos por meio de reflexão das realidades mais amplas dos avanços bíblico-teológicos." (cap. 2)
"Será mais sábio se nos abstivermos de fazer distinção entre padrões ou paradigmas ou modelos estanques das relações entre Cristo e cultura e, em lugar disso, pensarmos numa integração sábia." (cap. 2)
"Começa-se a cogitar que os padrões distintos que Niebuhr apresenta não são às vezes tão estilizados de modo a mascarar as pressuposições bíblicas mais fundamentais e estruturantes sobre Cristo e cultura." (cap. 2)
"Niebuhr nos oferece cinco opções, e cada uma ocupa um capítulo de sua obra." (cap. 1)
"A minha voz é apenas mais uma nesta longa corrente de reflexão cristã." (Prefácio)
5 Perguntas para Aplicação, Estudo ou Discussão
- Qual modelo de relação Cristo-cultura eu adoto, consciente ou inconscientemente, e como isso limita minha visão?
- Nossa comunidade tende ao isolamento cultural ou à acomodação acrítica? Como podemos habitar a tensão bíblica?
- Como líder, eu ensino meus liderados a pensar biblicamente sobre cultura ou apenas a reagir emocionalmente?
- Nossa pregação apresenta a relação do cristão com a cultura de forma nuançada ou reducionista?
- No contexto missionário brasileiro, como o reducionismo tipológico enfraquece tanto o testemunho quanto a contextualização?
Insight 2 — A Teologia Bíblica Deve Controlar a Reflexão Sobre Cristo e Cultura
O segundo grande insight do livro é a proposta construtiva de Carson: os "elementos inegociáveis da teologia bíblica" devem controlar simultaneamente toda reflexão sobre Cristo e cultura. Esses elementos são os grandes pontos decisivos do enredo bíblico: a criação e a queda, a eleição de Israel, a vinda de Cristo e a inauguração do reino, o "já e o ainda não" da escatologia, a existência da igreja como povo transnacional, a distinção entre César e Deus, e a consumação final com novos céus e nova terra.
Carson insiste que nenhum desses elementos pode ser ignorado ou absolutizado. Quando maximizamos a queda e a singularidade da comunidade redimida num contexto de perseguição, geramos o padrão "Cristo contra a cultura". Quando maximizamos a soberania de Cristo sobre toda a criação, geramos o padrão transformacionista. Quando maximizamos a graça comum, geramos algo próximo ao "Cristo da cultura". Mas nenhuma dessas maximizações é fiel ao todo bíblico.
A conexão entre doutrina e prática é transformadora. Se todos os elementos devem ser mantidos juntos, então a resposta cristã à cultura nunca é simples. Ela exige sabedoria contextual: em contextos de perseguição, certos elementos receberão mais ênfase; em contextos de liberdade democrática, outros. Mas mesmo cristãos perseguidos não devem pensar que sua leitura particular de Cristo e cultura é a única válida.
No contexto brasileiro, esse insight desafia tanto o triunfalismo neopentecostal (que absolutiza a transformação cultural) quanto o escapismo dispensacionalista (que absolutiza a separação). Ambos são reducionismos que selecionam apenas parte do enredo bíblico. A maturidade cristã exige manter a tensão inteira.
Citações-Chave
"As afirmações bíblico-teológicas que fiz na seção anterior têm de controlar nosso pensar simultaneamente e o tempo todo." (cap. 2)
"De modo algum irei adotar qualquer configuração com alguns elementos selecionados e, com base nessa configuração, construir nosso padrão de como devem ser as relações entre Cristo e cultura." (cap. 2)
"Deus permanece soberano sobre toda a ordem criada; nós somos pecadores constantemente necessitados da graça." (cap. 2)
"Devolvam a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." (Mt 22.21, citado no cap. 2)
"Aguardamos a volta de Jesus Cristo, a chegada dos novos céus e da nova terra, o raiar da ressurreição, a glória da perfeição." (cap. 2)
5 Perguntas para Aplicação, Estudo ou Discussão
- Eu mantenho juntos os elementos inegociáveis da teologia bíblica ou tendo a absolutizar apenas um deles?
- Nossa comunidade equilibra a esperança escatológica com o engajamento presente, ou pende para um lado?
- Como líder, eu formo discípulos que pensam teologicamente sobre cultura ou que apenas reagem culturalmente?
- Nossa pregação integra criação, queda, redenção e consumação, ou seleciona apenas os temas mais convenientes?
- Como a teologia bíblica integrada pode renovar a reflexão missional no contexto pluralista brasileiro?
Insight 3 — Não Há Utopia Antes da Consumação
O terceiro insight fundamental é a insistência de Carson de que, até a consumação, os cristãos vivem em tensão irredutível. Não há utopia terrena possível — nem política, nem cultural, nem eclesiástica. A perfeição vem somente com a volta de Cristo e a chegada dos novos céus e da nova terra. Qualquer expectativa de que a Igreja pode "redimir a cultura" de forma definitiva é uma forma de triunfalismo que ignora a escatologia bíblica.
Essa verdade desafia profundamente tanto a direita quanto a esquerda evangélica no Brasil. O triunfalismo político que imagina "conquistar o Brasil para Cristo" através do poder legislativo é tão equivocado quanto o utopismo social que imagina estabelecer o reino de Deus por meio de projetos de justiça social. Ambos confundem o "já" com o "ainda não". Carson é enfático: a única organização humana que continuará a existir na eternidade é a igreja; até conquistas culturais legítimas são acompanhadas de perdas, e o pecado pode se manifestar tanto na perseguição quanto no engano sutil.
Ao mesmo tempo, Carson rejeita o quietismo. O fato de que não há utopia não significa que não há nada a fazer. Estruturas educacionais, leis mais justas, abolição de injustiças, envolvimento nas artes — tudo isso é possível e desejável. A mudança cultural é real, mesmo que nunca seja permanente ou total. Fazer o bem à cidade é obrigação do povo redimido de Deus neste tempo de tensão entre o "já" e o "ainda não".
A visão de Carson é de um realismo cristão esperançoso: nem otimismo ingênuo, nem pessimismo paralisante, mas fidelidade ativa sob a soberania de um Deus que está levando toda a história ao seu fim determinado. A motivação bíblica é escatológica: "As nações andarão em sua luz, e os reis da terra lhe trarão a sua glória" (Ap 21.24).
Citações-Chave
"Enquanto permanecermos no reino inaugurado-mas-ainda-não-consumado, não haverá nenhuma utopia." (cap. 2)
"Não é sábio falar em 'redimir a cultura': se perdermos o significado peculiar ligado à redenção alcançada por Cristo com sua morte e ressurreição, perdemos a tensão contínua que existe e tem de existir até o fim entre Cristo e cultura." (cap. 6)
"Fazer o bem à cidade, fazer o bem a todas as pessoas, faz parte de nossa responsabilidade como povo redimido de Deus neste tempo de tensão entre o 'já' e o 'ainda não'." (cap. 6)
"Nossa verdadeira cidade é a nova Jerusalém, muito embora nosso lugar ainda seja Paris ou Budapeste ou Nova Iorque." (cap. 2)
"A condição das relações atuais entre Cristo e cultura não é definitiva. Essas relações têm de ser avaliadas à luz da eternidade." (cap. 2)
5 Perguntas para Aplicação, Estudo ou Discussão
- Em que áreas da minha vida espiritual eu alimento expectativas utópicas que a Bíblia não sustenta?
- Nossa comunidade vive a tensão entre o "já" e o "ainda não" ou tende ao triunfalismo ou ao escapismo?
- Como líder, eu modelo um engajamento cultural realista e esperançoso, sem utopismo nem passividade?
- Nossa pregação conecta a esperança escatológica com a responsabilidade presente?
- No contexto missionário brasileiro, como a escatologia bíblica pode corrigir tanto o triunfalismo político quanto o quietismo pietista?
Análise Capítulo a Capítulo
Prefácio — Por Que Este Livro?
Tese: O Prefácio identifica quatro impulsos que levaram Carson a escrever: a universalidade histórica da questão Cristo-cultura, a diversidade contemporânea de contextos cristãos, as discussões em seu grupo de aconselhamento na Trinity, e o convite da Faculdade Livre de Teologia Evangélica de Vaux-sur-Seine.
Conexão missionária: Estabelece o problema que o livro inteiro pretende abordar e justifica a necessidade de revisitar Niebuhr à luz da teologia bíblica e das realidades contemporâneas.
"A minha voz é apenas mais uma nesta longa corrente de reflexão cristã." (Pref.)
"Suspeitamos tanto de análises superficiais que tentamos fazer apenas análises locais. Argumentarei, no entanto, que algo importante, algo transcendente, se perde com essa falta de coragem." (Pref.)
Implicações: A consciência de Carson da diversidade global de experiências cristãs desafia o provincianismo teológico brasileiro. A admissão de que todo pensamento sobre Cristo e cultura é contextualmente moldado convida à humildade e ao diálogo intercultural.
Pergunta: Eu reconheço que minha reflexão sobre Cristo e cultura é moldada por meu contexto específico, e busco ativamente perspectivas de outros contextos?
Capítulo 1 — Como Pensar a Cultura: Lembrando-nos de Niebuhr
Tese: Este capítulo apresenta e avalia a tipologia quíntupla de H. Richard Niebuhr sobre as relações entre Cristo e cultura: Cristo contra a cultura, o Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo e cultura em paradoxo, e Cristo como transformador da cultura.
Conexão missionária: Estabelece o ponto de partida para todo o livro — a tipologia de Niebuhr é o quadro que Carson vai desconstruir e reconstruir à luz da teologia bíblica.
"Niebuhr nos oferece cinco opções, e cada uma ocupa um capítulo de sua obra." (cap. 1)
"Cultura é o 'ambiente artificial e secundário' que o homem impõe ao ambiente natural." (Niebuhr, citado no cap. 1)
Implicações: A maioria dos evangélicos brasileiros opera inconscientemente dentro de um dos modelos de Niebuhr sem perceber suas limitações. A apresentação clara dos cinco modelos permite autoavaliação e consciência crítica.
Pergunta: Eu conheço os cinco modelos de Niebuhr e consigo identificar qual deles adoto predominantemente na minha prática e pregação?
Capítulo 2 — Niebuhr Revisto: O Impacto da Teologia Bíblica
Tese: Este capítulo apresenta uma crítica a Niebuhr usando suas próprias categorias e, em seguida, propõe os "elementos inegociáveis da teologia bíblica" que devem controlar toda reflexão sobre Cristo e cultura.
Conexão missionária: É o capítulo mais importante do livro: contém tanto a desconstrução de Niebuhr quanto a proposta construtiva de Carson. Os capítulos seguintes aplicam essa proposta a questões específicas.
"As afirmações bíblico-teológicas têm de controlar nosso pensar simultaneamente e o tempo todo." (cap. 2)
"Se devolvermos a Deus aquilo que traz sua imagem, temos de nos dar inteiramente a ele." (cap. 2)
Implicações: A insistência de que todos os elementos devem ser mantidos simultaneamente desafia o reducionismo teológico brasileiro. A distinção César-Deus é especialmente relevante num contexto de crescente simbiose entre evangélicos e poder político.
Pergunta: Como os elementos inegociáveis da teologia bíblica — criação, queda, redenção, tensão escatológica, consumação — operam juntos na minha formação espiritual e na vida da minha comunidade?
Capítulo 3 — Refinando Cultura e Redefinindo Pós-Modernismo
Tese: Este capítulo refina o conceito de cultura para além das ambiguidades de Niebuhr e propõe uma avaliação equilibrada do pós-modernismo, distinguindo entre suas contribuições legítimas e suas pretensões absolutistas.
Conexão missionária: Aprofunda o trabalho conceitual necessário para que os capítulos 4–6 possam aplicar a teologia bíblica a questões culturais concretas.
"É mais coerente pensar em 'Cristo contra a cultura' apenas quando decompomos a cultura no nível de seus elementos constitutivos." (cap. 3)
"Todo conhecimento humano é perspectivo. A finitude humana justifica essa avaliação." (cap. 3)
Implicações: A distinção entre pós-modernismo soft e hard é especialmente útil no contexto brasileiro, onde influências pós-modernas entram nas igrejas sem análise crítica. A analogia langue-parole demonstra que "Cristo contra a cultura" é abstrato demais: Cristo pode ser contra práticas específicas sem ser contra a cultura como um todo.
Pergunta: Eu distingo entre influências pós-modernas que a fé pode acolher criticamente e aquelas que ela deve recusar — ou rejeito o pós-modernismo em bloco?
Capítulo 4 — Secularismo, Democracia, Liberdade e Poder
Tese: Este capítulo examina quatro grandes forças culturais do Ocidente — secularismo, democracia, liberdade e poder — e argumenta que cada uma delas, quando absolutizada, torna-se idolatria, mas quando relativizada à luz da teologia bíblica, pode ser avaliada com sabedoria.
Conexão missionária: Aplica os elementos inegociáveis do cap. 2 a forças culturais específicas, demonstrando como a teologia bíblica oferece avaliação crítica de cada uma.
"O deísmo não é um meio-termo entre o secularismo e o cristianismo; na verdade, é uma forma de secularismo." (cap. 4)
"A democracia é a opção menos objetável num mundo decaído." (cap. 4)
Implicações: A análise do secularismo como religião funcional é diretamente transferível ao Brasil urbano. A advertência contra o deísmo mínimo é cortante para igrejas brasileiras que diluem o evangelho em moralismo genérico.
Pergunta: Eu sacralizo alguma das forças culturais que Carson examina — democracia, liberdade, poder — a ponto de perder minha perspectiva crítica formada pelo evangelho?
Capítulo 5 — Igreja e Estado
Tese: Este capítulo demonstra que as relações entre Igreja e Estado são um subgrupo das relações mais amplas entre Cristo e cultura, e que escolher qualquer modelo único de Niebuhr para resolvê-las é exercício de reducionismo.
Conexão missionária: Aplica a tese do livro a uma das questões mais debatidas e mais práticas da relação Cristo-cultura, demonstrando que a complexidade histórica e contextual torna qualquer modelo único inadequado.
"Escolher um dos modelos de Niebuhr é exercício de reducionismo." (cap. 5)
"Se os cristãos não têm permissão de, como cristãos, defender suas ideias na esfera pública, então apoiamos a tese de que os secularistas ateus são as únicas pessoas em posição 'neutra'." (cap. 5)
Implicações: A análise comparativa entre França e Estados Unidos ilumina o contexto brasileiro, onde a separação Igreja-Estado é formal mas culturalmente porosa. A advertência contra confundir espaço político com missão da Igreja é urgente num cenário de crescente representação evangélica no Congresso brasileiro.
Pergunta: Eu distingo entre o que a Igreja como Igreja deve proclamar e o que os cristãos como cidadãos podem e devem fazer na esfera pública?
Capítulo 6 — Sobre Agendas Controversas, Utopias Frustradas e Tensões Contínuas
Tese: O capítulo final apresenta diferentes tradições cristãs de engajamento cultural — fundamentalismo, luteranismo, kuyperismo, expectativas minimalistas, perspectivas pós-cristandade e anabatismo — e argumenta que todas contêm verdades parciais, mas nenhuma é suficiente isoladamente.
Conexão missionária: Fecha o livro com uma visão panorâmica que reúne todos os fios argumentativos e demonstra que a postura cristã deve ser estável e flexível, fiel aos elementos inegociáveis e contextualmente sensível.
"Não é sábio falar em 'redimir a cultura'." (cap. 6)
"Não existe nenhum centímetro quadrado em toda a esfera da existência humana sobre o qual Cristo não exclame: 'Meu!'" (Kuyper, citado no cap. 6)
"Fazer o bem à cidade faz parte de nossa responsabilidade como povo redimido de Deus neste tempo de tensão entre o 'já' e o 'ainda não'." (cap. 6)
Implicações: A avaliação de Kuyper é especialmente relevante para a tradição reformada brasileira. A advertência contra o utopismo desafia tanto o neopentecostalismo triunfalista quanto o ativismo social progressista. A insistência de que fazer o bem à cidade é obrigação cristã desafia o escapismo pietista.
Pergunta: Qual tradição de engajamento cultural mais influencia minha prática? Quais são os seus pontos cegos que Carson me ajuda a enxergar?
Conclusão
Cristo e Cultura: Uma Releitura oferece à Igreja contemporânea algo que ela desesperadamente necessita: uma demonstração rigorosa de que a relação entre Cristo e cultura não pode ser reduzida a nenhum modelo único. A contribuição central de D. A. Carson é demonstrar que os grandes pontos decisivos do enredo bíblico — criação, queda, redenção, tensão escatológica e consumação — devem ser mantidos simultaneamente como elementos inegociáveis de toda reflexão sobre Cristo e cultura.
O valor pastoral é imenso. Este livro equipa pastores para uma reflexão sobre cultura que é teologicamente fundamentada, contextualmente sensível e escatologicamente realista. Liberta a Igreja tanto do triunfalismo que imagina transformar a cultura definitivamente quanto do escapismo que abandona a cultura à sua própria sorte. Oferece ferramentas para avaliar criticamente forças culturais como secularismo, democracia, liberdade e poder sem sacralizá-las nem demonizá-las.
O valor missional é igualmente profundo. Carson demonstra que a contextualização fiel exige manter juntos todos os elementos do enredo bíblico. Sem a criação, não há base para o engajamento cultural. Sem a queda, não há razão para a crítica cultural. Sem a redenção, não há poder para a transformação. Sem a escatologia, não há proteção contra o utopismo. Sem a consumação, não há esperança que sustente a fidelidade. A missão da Igreja exige todos esses elementos operando simultaneamente.
Que a Igreja brasileira ouça este livro como convocação à maturidade teológica. Que abandonemos os reducionismos que simplificam a relação entre Cristo e cultura a um slogan ou um programa político. Que habitemos a tensão com fidelidade, fazendo o bem à cidade enquanto aguardamos a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus. E que nossa reflexão sobre cultura seja sempre controlada pela totalidade do enredo bíblico, não por fragmentos selecionados para sustentar nossas preferências.
Este livro não oferece um modelo alternativo. Ele demonstra que a busca por modelos é o problema. A solução é habitar o enredo bíblico em toda a sua complexidade — e viver a tensão com fidelidade até a consumação.
Como Usar Este Livro
- Devocional pessoal: leia um capítulo por semana, refletindo sobre as perguntas de aplicação. Pergunta-guia: "Qual modelo de relação Cristo-cultura eu adoto inconscientemente, e o que a teologia bíblica integrada tem a dizer sobre isso?" Ore pedindo ao Espírito que liberte sua mente de reducionismos e que forme em você uma visão integrada do enredo bíblico.
- Pregação e ensino: os seis capítulos fornecem material para uma série de sermões sobre "O Cristão e a Cultura". Os capítulos 4–5 sobre secularismo, democracia e Igreja-Estado são especialmente relevantes para a pregação no contexto político brasileiro.
- Formação de líderes: use como texto obrigatório em escolas de liderança e cursos de mentoria pastoral. Os capítulos 1–2 são ideais como introdução à tipologia de Niebuhr e sua crítica. O capítulo 6 sobre tradições de engajamento cultural serve como roteiro para discussão em grupos.
- Grupos missionários: estude em conjunto com A Imaginação Profética, de Brueggemann, e A Missão do Deus Trino, de Dodds, para uma visão missiológica integral que conecte fundação trinitária, imaginação profética e sabedoria cultural.